Fase 2

No final de 2009, Maurício Miranda, promotor do Ministério Público

do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), apresentou representação

que solicitava a mudança de direção do inquérito, até então na 1ª DP.

O pedido foi deferido por Fábio Esteves, juiz substituto do Tribunal

do Júri, com a justificativa de que o prazo de sessenta dias para que a

delegacia solucionasse o caso havia se esgotado. Além disso, os filhos

do casal assassinado, Adriana e Augusto Villela, haviam denunciado

as muitas irregularidades da investigação. Entre outras barbaridades,

Martha Vargas, delegada da 1ª DP, havia violado o sigilo do escritório

de advocacia da família, apreendendo documento não identificado,

sem autorização e sem mandato.

O juiz determinou, então, que o caso seguisse para a Delegacia

Especializada em Investigação de Homicídios (Corvida) então

dirigida pelo delegado Julião Ribeiro, em novembro de 2009. Ao

mesmo tempo, foi criada uma comissão composta por policiais da

Corregedoria-Geral da Polícia do Distrito Federal, da Delegacia de

Repressão a Roubos (DRR) da 1ª DP e da Corvida.

Durante o breve período de trabalho da força-tarefa formada, a 1ª DP

ficou à frente do inquérito. Em dezembro de 2009, a comissão foi

dissolvida por não haver entendimento entre as delegacias envolvidas.

A investigação, então, ficou a cargo exclusivo da Corvida, dirigida, a

partir de então, pela delegada Mabel de Faria.

Denúncias contra a 1ª DP

As muitas denúncias de irregularidades na condução do caso, pela 1ª

DP, levou a instauração de 11 processos contra agentes e a delegada

Martha, responsável pela primeira fase da investigação, na

corregedoria: a delegada plantou provas falsas para incriminar três

rapazes, no Distrito Federal, além de ter permitido, segundo a

investigação, que fossem torturados por agentes policiais. Além disso,

usou os serviços de uma vidente para tentar esclarecer o crime, o que

tornou a investigação uma piada nacional.

Também sem provas e evidências, a delegada Martha apontou

Adriana Villela e a diarista Guiomar como suspeitas, fundamentando

pedido de prisão temporária contra as duas, com base apenas em

notícias veiculadas na mídia.

Na Corvida, todas as linhas de investigação anteriores foram

abandonadas e o foco do inquérito se voltou exclusivamente para

Adriana Villela, arquiteta e filha do casal. Em posse de uma carta,

recolhida ilegalmente do escritório de José Guilherme Villela durante

a primeira fase de investigação, comandada pela 1ª DP, a delegada

Mabel de Faria construiu a tese teratológica de que, por ter tido

conflitos pessoais com a mãe, Adriana teria razões, portanto, para

mandar assassiná-la, junto com o pai e a empregada da casa.

Em abril de 2010, Rodrigo de Alencastro, do escritório Antônio

Carlos de Almeida Castro, assumiu a defesa de Adriana. O advogado

encaminhou uma representação à OAB-DF na qual pediu

esclarecimentos acerca de irregularidades observadas nas

investigações, bem como a apuração das denúncias apresentadas. A

resposta veio em forma de retaliação.

Em agosto de 2010, quando o crime iria completar um ano, a Corvida

pediu a prisão temporária de sete suspeitos, alegando interferência nas

investigações. Foram detidos Adriana Villela; a vidente Rosa Maria

Jaques; o marido dela, João Tocchetto; o ex-agente policial José

Augusto Alves; e a ex-diarista de confiança da família Villela,

Guiomar Barbosa, então com 71 anos

Dois Habeas Corpus foram deferidos pelo Tribunal de Justiça do

Distrito Federal, em 20 de agosto de 2010 (em favor de Guiomar) e

em 3 de setembro de 2010 (em favor de Adriana). Rosa, o marido e o

agente Augusto também tiveram seus pedidos de relaxamento de

prisão deferidos pelo Tribunal. Dos cinco, no entanto, apenas Adriana

cumpriu integralmente os 30 dias de prisão: 17 na penitenciária

feminina do Gama (Colmeia) e 13 em prisão domiciliar. (Fotos

Habeas Corpus)

A quebra de sigilo telefônico dos suspeitos revelou que Adriana não

estava ligada nem à vidente e nem ao policial. Ao contrário, expôs

diversas ligações entre Rosa e o agente. Entre as ligações

interceptadas pela polícia, havia uma em que a vidente conversava

com seu filho, comentando que iria “faturar muito” com o caso.

Em 28 de agosto de 2010, um ano depois da morte dos pais, Adriana

submeteu-se a um exame datiloscópico experimental no apartamento

onde ocorreu o crime, no mesmo horário do assassinato.

De acordo com um memorando, enviado pelo Instituto de

Identificação da Polícia Civil à Corvida, foram coletados um total de

369 fragmentos de digitais em condições de confronto ou pesquisa no

apartamento. Ainda segundo o documento, no momento da perícia,

“não foram observados indícios de limpeza” no local. Entre essas 369

digitais, a delegada Mabel elegeu uma digital da filha no escritório do

casal — fora, portanto, da cena do crime — para embasar suas

suspeitas de que Adriana estava presente na hora dos assassinatos.

Usando uma pesquisa que procura desenvolver uma metodologia

supostamente capaz de datação de digitais, ainda não aplicável à

prática, a delegada decidiu tentar provar que as impressões palmares

encontradas durante a perícia, em 2009, teriam sido deixadas no dia

do crime, por Adriana.

De acordo com especialistas, somente em condições de laboratório

seria possível tentar recriar as mesmas condições climáticas do dia e

do local, além das mesmas condições pessoais da autora da impressão

(secreções, suor ou uso de cosméticos). Na experiência da perícia,

nenhuma iniciativa foi tomada para tentar isso: nenhum indicador de

clima das duas datas foi sequer verificado. Para estabelecer tal

condição, a delegada contentou-se em levar Adriana lá, exatamente na

mesma hora em que teria ocorrido o crime, um ano depois. Segundo

Mabel, a hora fora escolhida “para reproduzir as mesmas condições

climáticas do dia do crime” – o que, sob qualquer ótica, não faz

sentido algum.

Ato contínuo, a imprensa passou a veicular informações dando conta

que as digitais de Adriana haviam sido encontradas no closet do

apartamento, onde se encontravam as joias e os dólares. As matérias

apontavam ainda para vestígios na pia e nas toalhas de um banheiro

do imóvel. Tais vazamentos ocorreram dois meses antes do relatório

final das investigações da Corvida ser apresentado, oficialmente.

Conclusão do inquérito

O relatório final da Corvida foi apresentado prematuramente, após

forte pressão da OAB-DF, que exigiu esclarecimentos sobre o sumiço

de diligências e provas que atestariam a inocência de Adriana e

demonstrariam enganos da polícia utilizados como fundamento para

mandados de busca e apreensão e pedidos de prisão preventiva e

temporária de suspeitos. O texto acusava Adriana como mandante de

um crime sem sequer esclarecer as circunstâncias em que ele ocorreu,

ou, ao menos, apontar seus executores. O relatório não apresentava

nenhuma prova substancial contra ela, mas, em contrapartida, gerou

muita confusão ao apresentar uma interpretação distorcida de

depoimentos, reconhecimentos desvinculados dos fatos, argumentos,

narrativas e laudos insustentáveis em qualquer tribunal.

Apesar de em segredo de Justiça, vários trechos do documento foram

fragmentados e vazados para a imprensa, de modo a confundir a

opinião pública e sustentar a versão de crime de mando, defendida

pela Polícia Civil. Em um movimento deliberadamente orquestrado,

desviou-se sistematicamente a atenção dos diversos equívocos,

omissões e irregularidades cometidas pela investigação.