Depoimento Vinícius Carvalho

Adriana Villela, minha querida amiga, é mais uma inocente engolida pelo sistema de injustiça brasileiro. Está sendo acusada de mandar matar três pessoas – entre elas os próprios pais – sem que seja apresentada uma prova sequer contra ela: nenhuma ligação telefônica, nenhuma foto ou vídeo, nenhum depósito bancário, nenhum vestígio de DNA, nenhum testemunho de qualquer pessoa que tenha presenciado o contato entre ela e os demais réus do processo.

Muita gente aqui já deve ter ouvido falar no Crime da 113 Sul, em Brasília. Ou no caso da Escola de Base, em São Paulo. Este texto reúne o que consegui depurar da leitura dos autos. É o que você não verá na imprensa, que está preocupada demais com a audiência para pensar em apuração e direitos civis.

Pois bem.

A delegada Mabel Faria e o promotor Maurício Miranda insistem que Adriana teria contratado o ex-porteiro do prédio dos Villela Leonardo Alves para cometer os assassinatos, mas omitem que ela pede a investigação dele à polícia desde 2009.

Ambos dizem que Adriana tentou obstruir as investigações para preservar os autores do crime, mas omitem que ela e Guiomar, sua funcionária de confiança, chegaram a ser alvo de representação policial na qual Guiomar chega a ser acusada de tentar imputar “falsamente a presença de um ex-porteiro na cena do crime” – fato que ocorreu três meses antes de Leonardo confessar que era de fato o autor dos assassinatos.

Ambos alegam que Leonardo e seu sobrinho Paulo Cardoso confirmaram espontaneamente o crime de mando, mas não dizem que Mabel orientou os acusados a mudar a versão de latrocínio a homicídio para ficarem menos tempo na cadeia, – procedimento já confirmado por dois advogados ligados a Paulo em depoimentos prestados em juízo.

Ambos apresentam uma carta dura de Maria Villela a Adriana em 2006 para “provar” que ela era inimiga dos pais, mas omitem dos autos diversas mensagens de amor e afeto entre ambas antes e depois dessa data.

Ambos dizem ter certeza de que o crime foi praticado por alguém ligado à família por não haver sinais de arrombamento, mas desconsideram as manchas encontradas ao pé da porta de serviço dos Villela no dia em que os corpos foram descobertos – o que evidentemente abre a possibilidade de que ela tenha sido forçada.

As únicas bases da acusação são, hoje, um laudo de datação de digitais já inteiramente desqualificado pelo próprio Instituto de Criminalística da polícia civil do DF, o “testemunho” de um homem ligado aos réus com claro envolvimento no crime e dois depoimentos já desmentidos do ex-porteiro Leonardo Alves e seu sobrinho Paulo Cardoso, – réus confessos -, que primeiro a inocentaram e depois mudaram de versão exatamente para aquela que os deixaria menos tempo na cadeia: ao invés de latrocínio, homicídio qualificado com mandante. E que também já foi desmentida!

Significa dizer que, no Distrito Federal, uma pessoa inocente e do bem pode chegar ao banco dos réus com base no depoimento de um criminoso cuja mudança de versão lhe beneficia diretamente com menos tempo de cadeia – e mesmo que ele volte atrás e reconheça que mentiu. E ainda mais grave, versão induzida pela própria polícia e acolhida pelo Ministério Público para encobrir seus erros ao longo da investigação. A saber: acusar, indiciar e prender equivocadamente uma filha inocente de mandar matar os próprios pais antes de sequer identificar os executores do crime.

Isto mesmo. Diante da pressão política para que se resolvesse o caso, Adriana foi acusada e indiciada como mandante de três assassinatos sem que a polícia sequer identificasse os autores do crime! Desejo de demostrar eficiência a qualquer custo? Vergonha de voltar atrás e pedir desculpas quando se descobriu que o verdadeiro autor do crime era justamente quem Adriana apontava desde o início? Necessidade de sustentar a versão falsa para não verem as carreiras irem para o ralo? Pura incompetência? Me dá até calafrios imaginar o porquê.

O que eu peço é atenção, companheiros! Neste caso não é só Adriana quem teve a vida ferida. Há também relatos de confissões por tortura, sumiço de provas, manipulação de depoimentos, vazamento de informações sigilosas e a prisão de outras pessoas inocentes.

DESCASCANDO A ACUSAÇÃO

MENTIRA 1

O que diz a acusação: Adriana seria a mandante do crime, segundo apontam os réus Leonardo e Paulo.

Os fatos: Desde 2009, em depoimentos prestados tanto na 1aDP como na Corvida, Adriana já insistia na investigação de Leonardo Alves, ex-porteiro do prédio dos Villela. Aí está um dos principais nós de toda argumentação construída pela polícia. Por que Adriana levantaria suspeitas contra seu suposto comparsa sendo a mandante do crime, se isso a incriminaria? E por que a polícia não investigou o ex-porteiro como desejava Adriana, se sabia que ele poderia ter motivação para matar o casal Villela?

Porteiro do prédio do casal Villela por 14 anos, Leonardo foi demitido, meses antes dos assassinatos, após ameaçar um colega de trabalho com uma faca. Em seu primeiro depoimento, prestado em 22/09/2009, revelou detalhes da rotina do casal e apontou diversas falhas na segurança do prédio. Omitiu também o evento crítico lembrado por Adriana – em ambas as delegacias – para pedir o aprofundamento das investigações contra ele: sua entrada no apartamento dos Villela a fim de consertar um vazamento de água com infiltração, realizada com anuência do síndico mas sem autorização do casal. O caso revoltou a mãe de Adriana, que chegou a alegar “invasão de domicílio” em notificação distribuída aos moradores do prédio.

Apesar dos indícios, apontados também por outros moradores do condomínio, a Corvida simplesmente ignorou esta linha de investigação. Pior, chegou a acusar Adriana de tentar obstruir as investigações por supostamente orientar Guiomar, sua funcionária de 71 anos, a prestar falso testemunho à polícia mentindo sobre ter visto o ex-porteiro nos arredores do prédio à época dos assassinatos. Segundo representação policial assinada por Mabel em 03/08/2010, seria uma tentativa de “criar falsamente uma estranha presença de um ex-porteiro no dia do crime”. O fato ocorreu três meses antes de 8a DP revelar que Leonardo – até então considerado inocente por Mabel – estava de fato envolvido nos assassinatos.

Leonardo foi preso em 15/11/2010 por agentes da 8ª Delegacia de Polícia (SIA) em Montalvânia (MG), cidade mineira localizada a 640km de Brasília. Chefe da unidade policial, a delegada Deborah Menezes chegou ao ex-porteiro após seguir, por conta própria, pista passada por Lindomar Videira, ex-detento que dividia cela no Presídio da Papuda com Dantas Alves, filho de Leonardo. Segundo a delegada, Dantas teria admitido a Lindomar que a polícia “estava prendendo a pessoa errada” e que seu pai era o verdadeiro autor dos assassinatos.

Já preso, Leonardo confessou o crime de latrocínio e negou qualquer participação de Adriana. Também expôs motivação, – alegando ter sido humilhado por José Villela ao pedir emprego – e forneceu informações que só poderiam ser conhecidas por alguém que esteve presente na cena dos assassinatos, como detalhes das gavetas onde estavam as joias e minúcias sobre o closet. Apontou ainda os dois receptadores das joias roubadas, que admitiram à polícia ter comprado as peças e trocado celulares por dólares. “Cansei de perguntar se havia mandante e ele sempre disse que não”, é o que relata a delegada Deborah Menezes. Ela também disse que citou nominalmente Adriana, indagando se ela esteve na cena do crime, ao que o criminoso respondeu: “Se ela entrasse lá, eu a mataria do mesmo jeito”.

Em seu primeiro depoimento, Leonardo também apontou Paulo Cardoso Santana, seu sobrinho, como cúmplice dos assassinatos. Paulo já estava preso por outro crime de latrocínio no interior de Minas Gerais quando foi ouvido pelos policiais e apresentou a mesma versão de Leonardo: latrocínio, praticado por ambos, sem a existência de mandante. É bom lembrar que não houve, nesse período, qualquer tipo de contato entre Paulo e Leonardo. Ou seja, ambos prestaram depoimento e inocentaram Adriana sem que fosse possível, neste momento, “combinar” uma versão para o crime.

A esta altura, a delegada Mabel – então no comando das investigações – já havia indiciado Adriana como mandante dos assassinatos sem sequer apontar os executores do crime. O procedimento, para mim simplesmente absurdo, consta do primeiro relatório de conclusão do inquérito, apresentado pela Corvida em 14/09/2010. Pega de surpresa com a prisão de Paulo e Leonardo – que ocorreria dois meses depois pela ação independente de outra delegacia, – e com as confissões de ambos inocentando Adriana -, Mabel teria orientado para que sustentassem a versão previamente apresentada por ela!

A conduta de indução, como consta nos autos, foi atribuída à delegada Mabel, em juízo, pelos advogados Fabrício Ornelas e Geraldo Flávio Macedo. Em oitiva judicial, ambos relataram que a delegada pediu que eles conversassem com Paulo e lhe orientassem a confessar o crime de mando. Eis o motivo, conforme depoimento prestado em juízo por Fabrício: “ela me pediu que convencesse o Paulo Cardoso a confessar o crime de mando, e que mostrasse o benefício da aplicação da pena, tendo em vista que, como ela disse, o latrocínio é a pena mais alta do Código Penal e homicídio qualificado seria a pena de 12 anos”. O estratagema é confirmado por Geraldo: “Aí ela me pediu, falou assim: ‘Doutor, você podia… você conversa com Paulo?’ (…). Então conversa com ele, explica para ele assumir o crime de mando, que é bem mais benéfico para ele que o de latrocínio”.

Foi nesse momento que surgiu a versão apresentada pela Corvida – entre tantas – para sustentar a participação de Adriana no crime. Nela, Leonardo aponta mando de Adriana e se coloca fora do apartamento, atribuindo os assassinatos a Paulo e Francisco Mairlon. Pior, versão que foi desmentida pelos acusados tão logo saíram dos porões da Corvida, conforme depoimentos prestados em juízo.

MENTIRA 2

O que diz a acusação: Adriana teria estado na cena do crime, no dia dos fatos, em dois períodos distintos. Primeiro para facilitar a entrada dos assassinos no apartamento e depois para determinar a execução. A presença dela na cena do crime teria ficado demonstrada por um Laudo de Datação de Impressão digital.

Os fatos: Produzido pelo Instituto de Identificação da Polícia Civil do DF, – que já foi chefiado por Mabel -, o referido Laudo de Datação de Impressão Digital já foi inteiramente desqualificado pelo Instituto de Criminalística da própria Polícia! Assinado por quatro peritos a pedido do Tribunal do Júri de Brasília, o documento diz que é nula, por total inconsistência técnica, a perícia oficial do Instituto de Identificação.

Eis o que diz a contraprova do Instituto de Criminalística da Polícia Civil, órgão qualificado para a realização de perícias no DF: “Os peritos concluem que (…) o trabalho realizado pelo II não possui sustentação técnico-científica suficiente para tecer conclusões a respeito da idade do fragmento de impressão papiloscópica questionado”. Segundo o IC, há na metodologia do primeiro laudo “deficiências e dados inconsistentes”. Diz, ainda, que “não há metodologia capaz de determinar de forma razoável a idade de impressões”.

Além do laudo já desqualificado, depoimentos de peritos que fizeram a coleta de impressões no dia 31 de agosto de 2009, quando os corpos foram achados, já haviam revelado que, por “barbeiragem”, digitais colhidas na portaria foram misturadas indevidamente com as colhidas dentro do apartamento, o que levanta dúvidas sobre a própria acuidade da digital utilizada.

“Alíbi sólido” – Mesmo sem a obrigação de comprovar que não estava no apartamento, – tarefa de quem acusa -, Adriana apresentou, desde o início, um álibi sólido. Todas as informações, espontaneamente prestadas, são confirmadas por análise do sigilo telefônico (ERBs), comprovantes de pagamento auferidos pelo banco e testemunhos que não foram contraditados em nenhum momento pela acusação.

No dia do crime, Adriana saiu às 18h10 do Instituto Cervantes após participar de um curso de extensão em arquitetura. A participação foi confirmada pela lista de chamada e a hora de saída pelo colega de curso Francisco Leitão, que a viu no auditório quando saía do local. O testemunho de Francisco, prestado em juízo, em nenhum momento foi contraditado pela acusação ou refutado nas alegações finais do Ministério Público.

Saindo do Instituto Cervantes, Adriana combinou de lanchar com a amiga de infância Graziela, na Vila Planalto. Foi então à padaria La Boulangerie e à delicatessen Quitinete, onde comprou bolos e sucos para o encontro. Ela saiu dos locais respectivamente às 18h20 e às 18h33. A hora é confirmada pelos extratos do banco e as ligações à Graziela ao longo de todo percurso constam nos registros telefônicos entregues à justiça.

A partir daí, a movimentação de Adriana pode ser verificada via ERBs, torres que fornecem sinal para os aparelhos celulares. Desde que sai da delicatessen, às 18h33, seu celular é captado pela ERB “SCES ASBAC TR 02 Brasília – DF” às 18h49 e pelo sinal da ERB “EMI BL G Esplanada dos Ministérios Anexo Agara” às 18h51, comprovando que Adriana estava na L4 SUL em trânsito rumo à Vila Planalto. O último registro ocorre às 18h56 da ERB do Ministério das Comunicações, que serve justamente a casa de Graziela na Vila Planalto.

Adriana permaneceu no local até o fim do jornal Nacional, às 20h57. A presença é assegurada por testemunho de Graziela, rico em detalhes e também em nenhum momento contraditado ou refutado pelo Ministério Público.

De lá, Adriana seguiu para casa, no Lago Sul. Antes de se recolher, enviou, às 21h18, e-mail para um grupo de amigas convidando para um encontro no dia seguinte. O envio desde sua casa, confirmado em perícia, foi absurdamente omitido pela Corvida para não desmontar sua versão – já exaustivamente declarada à imprensa – de que Adriana teria estado na cena do crime.

Por quê? A tese é simplesmente conflitante com a versão de Leonardo. Segundo esta versão, ele e o comparsa saíram do apartamento após o crime, seguiram de ônibus até a rodoviária e de lá partiram em outra condução para a rodoferroviária, a tempo de comprar passagens e pegar um ônibus às 22h.

Ora, se Adriana estava comprovadamente em casa às 21h18, como seria possível que se deslocasse da QI 29 do Lago Sul ao apartamento na 113 sul para ordenar os assassinatos e ainda haver tempo para os criminosos cumprirem todo este percurso? A tese, simplesmente absurda, só se sustentou devido à omissão, pela Corvida, do email enviado por Adriana às amigas na noite do crime. De forma gravíssima, a delegacia dispunha desta informação e simplesmente a omitiu.


MENTIRA 3

O que diz a acusação: Adriana teria “ajustado” a prática do crime com Leonardo, com promessa de pagamento em dinheiro e joias.

Os fatos: Leonardo primeiro admitiu a prática de latrocínio sem mando na 8aDP, depois excluiu-se da cena do crime e apontou Adriana como mandante na Corvida e por fim negou qualquer participação nos assassinatos durante as oitivas judiciais, alegando ter sido torturado para confessar. Por que a acusação não admite a falta de credibilidade da testemunha? E por que a polícia seleciona apenas a versão de Leonardo que lhe interessa, ainda que não haja uma evidência sequer destes encontros?

Pelo que entendi da versão que sustenta a acusação, Adriana teria escolhido Leonardo para praticar o crime e ligado para ele em Montalvânia no dia primeiro de agosto, descobrindo sabe-se-lá-como o seu número de telefone. Teriam se encontrado então por duas vezes no Conjunto Nacional para acertar o crime, sem que – novamente – fosse apresentada uma prova sequer dos encontros, nem pela polícia nem pelo ministério público: nenhuma ligação telefônica, nenhum email, nenhuma foto ou vídeo, nenhum testemunho de qualquer pessoa que tenha presenciado o contato entre eles.

Leonardo também modificou por diversas vezes os detalhes de como teriam se dado os encontros. Por exemplo, referiu-se a 2 de agosto como o dia em que partiu para Brasília, mas foi alertado que estava internado à época em um hospital em Montalvânia. Entre adaptações e readaptações, afirmou que pode ter recebido a ligação nos dias 1, 2, 3 de agosto e que pode ter encontrado Adriana nos dia 2, 3, 4, 13 ou 14 de agosto, além do próprio dia do crime (28/08). Chegou a mudar radicalmente sua versão, alegando que quatro homens em dois carros foram a Montalvânia e o obrigaram a cometer os crimes. Por fim, em seu último depoimento em juízo, disse que era tudo mentira e que jamais havia se encontrado com Adriana. O único depoimento levado em conta pela denúncia é aquele que incriminaria Adriana.

MENTIRA 4

O que diz a acusação: Adriana seria inimiga dos pais e tinha motivações financeiras para o crime

Os fatos: Foi esse o principal fundamento utilizado pela acusação para “comprovar” a relação de inimizade entre Adriana e a mãe: uma carta de Maria Villela, repreendendo-a, escrita três anos antes dos assassinatos. Ora, a polícia simplesmente omite diversos e-mails amorosos entre mãe e filha enviados antes e após esta data – e que eram de conhecimento da Corvida desde a apreensão do computador de Adriana em 2010. Como se verá, é o modus operandi praticado pela polícia ao longo de toda a investigação: pinçar as evidências que sustentem sua hipótese predeterminada para o crime e omitir todas aquelas que indiquem o contrário.

O mesmo estratagema é utilizado com relação aos testemunhos. Os depoimentos que apontam uma relação de conflito entre Maria e Adriana são imediatamente incorporados na peça de acusação, que ignora todos aqueles em contrário. Ou seja, todas as manifestações de amigos e parentes que davam conta de uma relação amigável e amorosa foram simplesmente desconsideradas pela polícia.

Segundo estes depoimentos, os desentendimentos entre Adriana e os pais eram de absolutamente pontuais. Maria Vilella desejava que a filha assumisse uma posição de estabilidade, habilitando-se para um concurso público. Adriana preferia o caminho da arte e da arquitetura, e sustentava essa decisão. Ou seja, dilema similar ao de milhares de outras famílias brasileiras e nem de longe “evidência” de que um filho deseje matar os pais.

MENTIRA 5

O que diz a acusação: Adriana comportou-se de forma estranha no dia em que os corpos foram descobertos, fazendo de tudo para adiar sua ida ao local do crime

Os fatos: O comportamento de Adriana não teve nada de “estranho”. Afinal, o que é um comportamento “estranho”!? Ela procurou a agência de viagens do casal Villela, sabendo que eles constantemente viajavam sem avisar ninguém. Também procurou o banco onde os dois tinham conta para checar se havia alguma movimentação fora da rotina, temendo a possibilidade de um sequestro. Passou ainda pela padaria Bellini, frequentada diariamente pelo casal, para checar se os Vilella tinham feito alguma compra no local. A movimentação é confirmada por Livino, ex-marido de Adriana, que a acompanhou durante todo o percurso. Além disso, foi a própria filha de Adriana – com quem esteve conversando por telefone ao longo do dia – quem descobriu os corpos após o casal Villela não comparecer ao escritório na segunda-feira. O que, afinal, há de estranho nisso!?

DESCALABROS DA INVESTIGAÇÃO

Acha que acabou!? Vai vendo!

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Uma chave do apartamento dos Villela, recolhida pela perícia, foi plantada na casa de pessoas inocentes para incriminá-las.
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Sob orientação da vidente Rosa Jaques – que teria se apresentado espontaneamente à 1aDP após “conversar” com o espírito de José Guilherme – a delegada Martha Vargas afirmou, em novembro de 2009, ter encontrado a chave que abre a porta de serviço do apartamento dos Vilella com três suspeitos presos em Vicente Pires: Alex Soares, Rami Kaloult e Cláudio Brandão, que “confessaram” o crime.

Cinco meses depois, um laudo pericial apontou que a chave “encontrada” era a mesma apreendida no apartamento dos Villela no dia em que os corpos foram encontrados. A pergunta de como uma chave que já estava com a polícia foi parar nas mãos dos suspeitos, por óbvio, levou à conclusão de que ela teria sido plantada para incriminá-los. O caso foi encaminhado à Corregedoria da Polícia e ao Núcleo de Controle Externo da Polícia do Ministério Público e resultou na exoneração da delegada Martha Vargas, até então responsável pelas investigações. Os três acusados dizem ter sido torturados para confessar.

Adriana nunca acreditou na versão da vidente e deixou clara sua desconfiança contra Rosa Jaques desde o primeiro momento, inclusive em depoimento prestado à polícia. Ainda assim, foi injustamente acusada pela delegada Mabel de ser mentora da farsa, contratando a vidente, seu marido e o agente policial José Augusto para desviar o curso das investigações. Induzido a erro, o juiz decretou a prisão preventiva dos quatro e de Guiomar, diarista de confiança da família.

Aos fatos:

– A única evidência apresentada pela Corvida para embasar a prisão de Adriana foi um “reconhecimento” por fotografia realizado por Valdevina da Câmara, servente do prédio onde a vidente Rosa Jaques realizava consultas em novembro de 2009. O procedimento, na minha interpretação, viola o artigo 226 do Código Penal, que exigiria reconhecimento presencial nestas circunstâncias: fato que poderia ter facilmente esclarecido o erro. O reconhecimento também ocorreu quase sete meses após o suposto encontro, por uma pessoa que a teria visto uma única vez e que jamais teve entre suas funções atentar para o acesso de visitantes ao prédio.

– O porteiro do Summer Park, Edson da Costa Soares, é quem de fato responde por anotar o nome e a carteira de identidade de todas as pessoas que entram no prédio. Em depoimento prestado em 08/06/2010, ele não apenas não reconhece Adriana como afirma que tem “boa memória” e que se lembraria caso ela tivesse estado lá. Ele também confirmou não haver qualquer registro da presença de Adriana no caderno do prédio, procedimento obrigatório para entrada no condomínio. O depoimento, favorável à Adriana, foi simplesmente omitido do relatório assinado pela delegada Mabel.

– Certa de que houve indução para que Valdevina reconhecesse Adriana – procedimento recorrente em toda a investigação -, a defesa solicitou cópia da íntegra do depoimento. O vídeo sumiu (!) da Corvida, restando apenas a cena final em que Valdevina assina o documento.

– Além do depoimento de Valdevina – notadamente frágil -, não há sequer um indício capaz de confirmar o contato entre Adriana e os demais acusados: nenhuma ligação telefônica, nenhuma foto ou vídeo, nenhum depósito bancário, nenhum testemunho de qualquer outra pessoa que alegue ter presenciado o contato entre eles. Ao contrário, são identificadas diversas ligações entre Rosa e José Augusto.

– De forma gravíssima, Mabel inclui Guiomar, funcionária de Adriana, no pedido de prisão preventiva. Por quê? Pelo fato de seu filho ter conhecido Cláudio na prisão. Ou seja, não apresenta nenhuma evidência sequer da participação de Guiomar, mas tenta criar um raciocínio de que este fato permitiria a ela ter indicado o nome de Cláudio como alvo para a farsa – raciocínio que, por óbvio, consagra a presunção de culpa e inverte a lógica constitucional do processo penal! Guiomar é uma mulher com 73 anos de vida honesta, e ficou três dias presa.

– Por um encontro que jamais existiu, Adriana – filha que teve os pais brutalmente assassinados – passou 30 dias presa: 17 na penitenciária feminina do Gama (Colméia) e 13 em prisão domiciliar. A prisão foi amplamente alardeada pela imprensa, com danos irreparáveis à imagem dela e de Guiomar.

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Regina Luna, uma pessoa inocente, foi indiciada pela polícia após ser confundida com outra pessoa.
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Em 14 de setembro de 2010, a delegada Mabel entregou seu primeiro relatório de indiciamento. Desrespeitando a devida precaução que se exige de qualquer bom policial, concluiu que Adriana e Regina Batista Lopes de Lunas, sem nenhuma dúvida, “participaram de crimes de extrema gravidade, de estrondosa repercussão e repulsa social e que tudo têm feito para impedir que o terceiro envolvido seja alcançado, protegendo, dessa forma, elas próprias”, acusando-as de latrocínio e homicídio. O nome de Regina, como se verá, surge por obra de um dos mais bizarros erros da polícia nessa investigação: ela foi confundida com outra pessoa.

Eis os fatos:

– O primeiro contato entre Adriana e Regina ocorre no dia 21/01/2010. Interessada em alugar uma loja que pertencia à família Villela, Regina enviou um e-mail para um amigo em comum, Maurice Jacoel, pedindo um contato de Adriana. Maurice, então, encaminhou o e-mail de Regina para Adriana e as duas passaram a conversar por telefone sobre a possibilidade do aluguel.

– Adriana e Regina – ao contrário do que insinua Mabel – não são amigas. O teor das conversas era de conhecimento da Corvida desde a apreensão dos computadores de ambas, em 15/04/2010.

– A evidência que embasa o pedido de busca e apreensão é falsa e surge após uma diligência atrapalhada realizada pela polícia nos dias 01 e 02/02/2010, na qual um agente seguiu os passos de Adriana. Nestas datas, após passar por um reconhecimento, Adriana encontrou-se com a prima Fernanda Villela Amoroso e dirigiu-se com ela até a casa da arquiteta no Lago Sul, onde passaram a noite. No dia seguinte, Adriana deixou a prima no Setor Bancário Norte e encontrou-se com Regina para lhe mostrar o imóvel que queria alugar. As duas seguiram no carro de Adriana até a 116 Sul – endereço da loja – e foram ao Café Marietta, na 210 Sul, para discutir a locação.

– O agente simplesmente confundiu Fernanda com Regina e, precipitadamente, concluiu que Adriana e Regina eram íntimas! A polícia tirou essas conclusões sem jamais ter perguntado para Adriana quem era Regina, ou quem teria ido dormir naquele dia em sua casa. O vídeo da diligência – que comprovaria a incompetência policial – também “sumiu” na Corvida. Fato gravíssimo, já que foi ela que embasou o pedido de busca e apreensão de Mabel nas casas de Adriana e Regina, induzindo o juiz a erro.

– Um procedimento “torto” de reconhecimento foi mais uma barbeiragem para tentar incriminar Regina e Adriana. A testemunha Josefa trabalhava como empregada doméstica no apartamento 502 do bloco E da quadra 113 sul, sendo que seu quarto ficava de frente ao bloco C, com vista para janela do apartamento do casal Villela. Entre 19h30 e 20h30 do dia dos assassinatos, a testemunha teria avistado uma mulher na janela do apartamento das vítimas. A testemunha não reconheceu Adriana, mas disse que Regina era “muito semelhante”. De forma gravíssima, segundo a defesa, Regina era a única mulher com características similares às descritas pela testemunha entre as mulheres que participaram do reconhecimento.

– Ao invés de concluir de forma prudente e segura os trabalhos de investigação, antes mesmo que se concluísse o inquérito policial, pendentes dezenas de diligências, inconclusas várias linhas investigativas, Mabel resolveu imputar a ambas a autoria das mortes.

– Em que pese toda humilhação a que foi submetida – decorrentes de busca e apreensão embasadas em falsas premissas e executada de forma truculenta na residência em que vive com seus filhos e na empresa que administra -, Regina nunca recebeu um pedido de desculpas da polícia. Seu nome, por óbvio, não aparece na denúncia final. Ou seja, a Corvida simplesmente fingiu que a história nunca aconteceu.

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Provas que poderiam comprovar os erros da polícia desapareceram
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Houve provas em profusão que desapareceram da Corvida. Todas, por uma infeliz coincidência, demonstrariam ou poderiam demonstrar enganos e parcialidade das investigações conduzidas pela delegacia.

A polícia, por exemplo, simplesmente omitiu o fato de que as roupas das vítimas – que poderiam conter vestígios de DNA dos criminosos – foram queimadas no IML. O erro foi ocultado pelos responsáveis pelas investigações até 01 de fevereiro de 2010, quando Adriana, ansiosa por esclarecimentos, perguntou à delegada Mabel se não havia quaisquer pistas nas roupas de seus pais e de Francisca. Segundo a delegada informou, as roupas teriam sido destruídas “por descuido”.

Não foi o único caso. Sumiu, também, o vídeo onde a prima de Adriana é confundida pela polícia com Regina de Luna e que embasou o pedido de busca e apreensão na casa das duas. Entre outros sumiços inaceitáveis, estão o áudio do interrogatório de Adriana na Corvida após a operação de busca e apreensão – na verdade uma sessão de tortura psicológica – e o vídeo da íntegra do depoimento de Valdevina. Segundo esta testemunha, Adriana teria ido ao prédio onde ela trabalhava para se encontrar com Rosa Maria Jacques – a vidente que procurou a 1a DP dizendo que poderia ajudar a encontrar os autores do crime. O vídeo, que poderia demonstrar a indução da polícia para que ela reconhecesse Adriana, foi apagado pela polícia.

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Informações sigilosas foram seletivamente vazadas para a imprensa
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Durante as investigações, o segredo de justiça foi seletivamente violado pela polícia para tentar consolidar na imprensa a falsa culpa de Adriana. Deste procedimento restaram danos irreparáveis à imagem dela, uma mulher inocente que se viu constrangida ao caminhar na cidade em que nasceu sem ao mesmo ter tido tempo de viver o luto da morte dos seus pais!

Os resultados do primeiro relatório do inquérito, por exemplo, foram divulgados pelo Correio Braziliense quase um mês antes de ser oficialmente concluído pela polícia. O mesmo ocorreu no caso do laudo de datação de impressões digitais, que seria desqualificado depois pelo Instituto de Criminalística do DF. O documento – que dizia ser possível comprovar a participação de Adriana no apartamento no dia do assassinatos – só foi oficialmente concluído em 01/12/2010. Ainda assim, seu “resultado” já era alardeado na imprensa nacional desde 25/09/2010.

Pode? Infelizmente, no Brasil, ainda pode.

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