Fase 1

No dia 31 de outubro, a 1ª Delegacia da Polícia da Asa Sul, chefiada até então pela delegada Martha Vargas, recebeu a notícia do crime ocorrido em sua área de atuação. De acordo com a polícia, três vítimas foram assassinadas por dois ou mais agressores, que teriam roubado joias e dólares do apartamento de Guilherme e Maria Vilella.

Pela magnitude do crime, a opinião pública cobrava respostas rápidas. Como dois ou mais assassinos entraram e saíram de um apartamento na Asa Sul sem serem vistos ou ouvidos por ninguém? Na época, Cezar Britto – então presidente da OAB – insistiu no rápido esclarecimento do crime pelas forças policiais

Os familiares foram convocados para prestar esclarecimentos sobre a rotina da família e deram longos depoimentos, na 1ª Delegacia, além de facilitarem o acesso a dados bancários e telefônicos, sem quaisquer medidas judiciais. Confiantes na capacidade da polícia em dar a devida solução ao caso, sequer constituíram advogado nessa primeira fase de investigações.

Durante os dois primeiros meses, mais de 80 depoimentos foram coletados e nenhuma pista dos assassinos foi encontrada. Enquanto isso, a imprensa seguia veiculando o assunto na mídia diariamente.

Imagens dos veículos do casal Villela, gravadas no sistema de segurança do bloco C da SQS 113 Sul, mostraram que Maria havia chegado às 19h08 e José Guilherme às 19h34. Francisca, a empregada do casal, como comprovado por duas ligações que realizou, estava no apartamento preparando o jantar. Em relação à cena do crime, encontraram José Guilherme sobre os papéis da bolsa de Maria, que teriam sido derramados no chão antes dos golpes que sofreu, próximo a Francisca, com um de seus pés nela apoiado – indicando que foi o último a cair. Maria Villela jazia caída no corredor, aparentemente retornando do closet, que estava completamente revirado. Sobre a pia da cozinha: uma faca, pequena e cheia de sangue

Marcos Santana e Gerson Belarmino, porteiros do turno diurno e noturno, respectivamente, também foram ouvidos pela polícia. Gerson relata que, dias após o crime, mais precisamente, no dia 30 de agosto, um domingo, o namorado de Alcione Nascimento Araújo, sobrinha de Francisca, apareceu procurando o paradeiro da funcionária dos Villela. Belarmino disse ao rapaz que Francisca devia ter viajado para conhecer um suposto namorado, aproveitando a viagem que José Guilherme e Maria fariam no mesmo final de semana. A mesma versão foi repetida por Marcos Santana para a ex-diarista do casal, Guiomar Barbosa, na manhã de segunda-feira (31), quando chegou para o trabalho, e para a neta do casal, Carolina, às 18h30min. Para Carolina, Marcos citou a cidade de Barreiras, na Bahia, como suposto destino de Francisca.

Paralelamente aos depoimentos, uma denúncia anônima levou às prisões de Damião e Adriano, por suspeita de envolvimento no crime. Uma testemunha teria visto o carro Astra preto, do qual Damião é proprietário, em uma região próxima, na CRS 513, às 21h30. Segundo a testemunha, dois homens carregando um saco preto entraram no carro, que saiu arrancando, depois de o motorista que os aguardava ter perguntado: “Fez os três? Fez os três?” – e obtido sua confirmação. A testemunha forneceu a placa do Astra, que levou a polícia aos suspeitos: um deles acusado por um tribunal, no interior da Bahia, de participação em grupo de extermínio, e o outro, suspeito de participar de um roubo de carro no Distrito Federal. No porta malas do carro, foi encontrado sangue.

Após um mês, foi divulgado o resultado do exame do DNA, realizado a partir do sangue encontrado. O resultado da comparação do DNA das amostras era incompatível com o sangue das vítimas, descartando a participação dos dois suspeitos presos, pelo menos neste crime.

Durante mais de 60 dias seguidos, o caso foi atualizado em todos os grandes jornais, tornando-se uma novela de interesse popular. Vazamentos de informações sigilosas da investigação apontavam cada uma das evidências encontradas e traziam mais dúvidas do que certezas.

Divulgado primeiro laudo pericial: 369 fragmentos de impressões digitais encontrados.

No dia 6 de novembro de 2009, após dois meses de investigação e 13 perícias, a Polícia Civil do DF divulgou os primeiros resultados do laudo do Instituto de Criminalística de Brasília. Os dados obtidos pelas perícias no apartamento pouco contribuíram para identificar os criminosos.

De acordo com o laudo, os assassinatos ocorreram entre às 19h30 e às 20h30. Ao menos dois criminosos esfaquearam as vítimas utilizando duas facas diferentes da que foi encontrada na cozinha do apartamento, com manchas de sangue, que a perícia constatou serem resíduos da preparação de alimentos.

Segundo a perícia, não havia marcas de arrombamento nas portas. Outro fato constatado foi que Francisca teve as mãos amarradas atrás do corpo antes de ser assassinada.

No trinco de uma das portas, a que fora utilizada pelos invasores, havia resíduo de sangue, identificado como sendo do ex-ministro. Próximos a essa porta, na área de serviço do apartamento, é que foram encontrados os corpos de José Guilherme Villela e Francisca, enquanto que o corpo de Maria estava no corredor do imóvel, mais próximo ao closet.

A perícia revelou também que, ao contrário da afirmação divulgada, de que o local tinha sido limpo sem que tivessem sido encontradas marcas de digitais, havia um total de 369 fragmentos de digitais em condições de confronto ou pesquisa no apartamento. Enquanto algumas delas pertenciam aos familiares e funcionários, que frequentavam a casa, muitas pertenciam aos próprios peritos.

Uma médium teria guiado a polícia aos suspeitos encontrados com a chave

Junto com a publicização das informações contidas no laudo pericial, foi apresentada nova versão para o crime. No início de novembro de 2009, a 1ª DP divulgou ter encontrado “a primeira prova material do crime”: uma chave que abria a porta dos fundos do apartamento.

Pedro Gordilho (amigo de longa data da família) e Adriana Villela foram chamados à delegacia para tentar reconhecer uma joia encontrada com um dos suspeitos.

A delegada Martha Vargas, responsável pela investigação, revelou que fora até o local em que a chave foi encontrada “pelo espírito de José Guilherme”. No dia seguinte, completou o relato afirmando que, para isso, contou com a ajuda de uma médium. Tal revelação causou a todos muita estranheza e desconfiança.

A vidente era Rosa Maria Jacques. Em 30 de outubro de 2009, Rosa Maria se apresentou voluntariamente à 1ª DP, acompanhada do marido, e disse a Martha que conversava com espíritos e podia ajudar a polícia a desvendar o crime da 113 Sul. A delegada a levou, então, para o apartamento dos Villela.

Em outro momento, Martha e Rosa Maria, acompanhadas pelo agente de polícia José Augusto Alves, foram ao bairro Vicente Pires e passaram em frente a uma casa. Rosa teria dito que, lá, encontrariam um prova do crime e o criminoso: “um moreno alto e mal encarado”. Dois dias depois, os investigadores efetuaram a prisão de dois suspeitos: Alex Peterson Soares e Rami Jalau Kaloult, que moravam no mesmo lote que Cláudio José de Azevedo Brandão, preso sete dias depois. A chave que abria o apartamento das vítimas teria sido encontrada na casa de Alex e Rami.

Presos por um mês, os suspeitos chegaram a confessar o crime. No entanto, a perícia realizada pela Corvida – divisão da polícia civil especializada em crimes contra a vida – concluiu que a chave e as joias foram plantadas pelos responsáveis pela primeira fase de investigações.

Claudio, Alex e Rami foram inocentados e alegaram que sofreram torturas na 1ª DP para confessar a autoria do crime. Posteriormente, denunciaram a conduta dos policiais à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.

Primeira menção a Leonardo Campos Alves

Adriana Villela e Guiomar apontavam insistentemente para Leonardo Campos Alves, ex-porteiro do prédio em que moravam José Guilherme e Maria Villela, como eventual suspeito e insistiam que a polícia deveria investigá-lo. Leonardo foi ouvido uma única vez, na condição de colaborador.

Em seu depoimento, prestado em 22 de setembro de 2009, Leonardo revelou conhecimento de detalhes da rotina do casal e apontou diversas falhas na segurança do prédio, onde trabalhou durante 14 anos (incoerência: não solicitaram o álibi do Leonardo). Quando perguntado, Leonardo detalhou ainda todas as vezes que esteve no apartamento do casal, mas não foi chamado para outros depoimentos, tampouco progrediu a investigação contra este.